Plural | De olhos bem abertos

A você, que me lê…

O tempo está seco: poeira e folhas se espalham pelas ruas da cidade. Típico mês de agosto. Como é prazeroso ver as árvores trocando suas “roupa-gens”. Parece ritual de preparo para as floradas de setembro. Aprecio demais ver essas mudanças na natureza. Penso na transitoriedade e na urgência do aprendizado das pequenas alegrias do cotidiano.

Estou organizando minha biblioteca pessoal — coisa que raramente faço. Isso depõe contra a minha profissão. Mas um pouco de caos nas estantes colocam diferentes autores para um diálogo por vezes insano e divertido. Atrevidamente, selecionei três livros para lhe sugerir a leitura. Mas a indecisão me consome: qual personagem irá gostar? Uma mulher com insônia e que a noite vive outra vida? Uma idosa que desbrava o mundo ou um matador de aluguel?

Depois de muito pensar, decidi por algo que me atravessa fortemente. Falar sobre mulheres, seus desafios e conquistas, assunto que não se esgota nos livros, mas transborda em nossas vidas diariamente. Sono e silêncio, despertar e desejos de uma mulher que está dezessete dias sem dormir são motes para este conto do Haruki Murakami. Uma metáfora sobre mulheres esmagadas pela rotina e o embotamento dos desejos, mas que um dia acordam e vivem suas vidas de outras maneiras. 

A personagem é uma mulher comum, sem nome.

Poderia ser qualquer uma de nós. Dona de casa e mãe, vive para a casa, filho e marido, repete diariamente a mesma rotina, sem refletir sobre sua vida, projetos e sonhos.

Neste ponto, sofri muito com a descrição e a repetição das rotinas da personagem. Com a falta de tempo para si. Sua dificuldade de pertencimento e o embotamento dos desejos. O absurdo da rotina bate na nossa cara com força e traz a percepção do quanto subtrai alegrias e desejos em nossas vidas, nos alienando dos problemas, onde tudo parece caminhar bem, se repetimos continuamente.

Com o passar dos dias e sem dormir, a mulher se percebe disposta fisicamente, viva e com energia. Manter-se acordada lhe traz possibilidades. As madrugadas são suas. Ela começa a viver uma vida dupla. Pela manhã repete a rotina e nas madrugadas inicia uma jornada de autoconhecimento. Reflete sobre sua vida, o casamento, o filho, coisas que ficaram pelo caminho e lhe traziam alegrias. Começa a se olhar e a repensar suas escolhas “não pode mais ficar com os olhos fechados para a sua vida — acordou para o seu mundo”.

Ela retoma a leitura de Anna Karenina. Percebe-se mulher diante do espelho. Volta a comer chocolate. Delicia-se em uma banheira. Bebe conhaque. Faz longos passeios noturnos de carro e tudo isso com muita paixão e enorme entusiasmo. Ela libertou-se da necessidade do sono.

Gostaria muito de lhe contar o desfecho, mas de pouco adianta. Murakami é previsível em vários aspectos. Você terá de refletir muito sobre os elementos simbólicos contidos neste livro. Desde a escolha do livro Anna Karenina, as ilustrações impactantes da artista alemã Kat Menschik. Creio que, no fim, terá mais perguntas do que respostas.

Não sei se já lhe disse, mas eu tenho por hábito, manter na minha estante apenas livros que me tocam, e este é um deles: edição belíssima, capa dura, impressão em papel grosso envernizado, tinta especial e as maravilhosas ilustrações.

Nirlei Maria Oliveira
Livro: Murakami, Haruki. Sono. Rio de Janeiro:
Cartas para abril

Nirlei Maria Oliveira

é Poeta e Bibliotecária com mestrado em Ciência da Informação, nasceu em  Formiga MG, e reside em Campinas, SP. Trabalha no IFSP, Campus de Hortolândia. Atua com ações e projetos de estímulo à leitura. Organizadora da coletânea Quarentena Poética (2020). 

É autora do livro de poesias Palavr(Ar)

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