Plural A cidade da minha escrita (2)

June Camargo

Dentro do peito habita cada uma das minhas palavras. Minhas e de muitas mães. Seus filhos carregam não como um adjetivo, mas um jeito todo seu de ser, o termo autista. Aos olhos do mundo o diferente, o deficiente.

Aos olhos do mundo a mãe guerreira, uma pessoa muito especial, escolhida por Deus. Nossas palavras secretas apontam em outra direção. Somos tão humanas e cheias de imperfeições e fraquezas como qualquer outra mãe ou pai de um filho neurotípico.

Mas a sociedade cria convenções arbitrárias.
Ou seria um jeito de acolher diferenças
conforme as próprias conveniências?

Bem mais simples e objetivo propagar o mito da mãe heroína do que perguntar como poderia ajudar e estender a mão. Dispor de uma fração do próprio tempo para que ela tenha algum só dela ou uma escuta amiga. Mães desejam transbordar sentimentos, dúvidas e medos em palavras. Sem esperar absolutamente nada em troca. Apenas a chance de escrever no vento perguntas que não têm resposta, ou conflitos legítimos que permanecem silenciados e invisíveis. Eles pesam bem mais do que muitos sacos de  areia. As dores que sobrevêm são resultado não de um cansaço físico que uma boa noite de sono repara. São dores da mente, da alma e do coração. Elas exigem de nós uma frequência fiel ao que chamo de cross-fit interno. É ali que palavras não ditas são processadas com sabedoria para não ferir o outro, a nós mesmas e ainda fortalecer nossos “músculos psíquicos”.

Cada palavra é traz uma amplitude de nuances muito maior do que o sentido denotativo. Enquanto observa as necessidades intrínsecas à condição dos filhos essas mães se submetem a um número de emoções e pensamentos. Raramente tomam plena consciência deles. Desde qual caminho e atitude adotar para favorecer ou evitar determinado comportamento, até se compensa expor sua verdade para um olhar que julga ambos.

É comum escolher ser indiferente. Por fora.
Uma forma de respeito e instinto de autopreservação.

A bem intencionada freira me acolheu à sua maneira. Disse pra eu ter fé e orar mais pois Deus curaria minha filha. Minha escrita precisa ser revisada internamente.

Ou amasso logo a folha e lhe enfio goela abaixo?
Respiro. Conto até doze.

Uma representante do divino bem podia trazer mais luz para o meu caminho! Recorro à conotação. A cidade dos escritos da freira comporta apenas essa verdade.

As palavras dela habitam um cômodo cuja janela contempla apenas um pequeno recorte de toda a paisagem que cerca aquela morada.

Merece respeito porque pertence a ela.
Mas não minha concordância
porque honro a minha própria verdade.

E onde está a verdade? Dentro de mim e de você e merece existir e ser respeitada. A verdade está em cada diferença que encontramos entre nossos filhos que o mundo supõe “ter a mesma coisa”.

A verdade está no fato de nós mães de filhos considerados diferentes buscarmos semelhanças entre eles e encontrarmos tanto em comum sobre nós mesmas.

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Um comentário em “Plural A cidade da minha escrita (2)

  1. Habitar a si mesma exige respeito de mão dupla. Intensidade com a qual compartilho: “São dores da mente, da alma e do coração. Elas exigem de nós uma frequência fiel ao que chamo de cross-fit interno. É ali que palavras não ditas são processadas com sabedoria para não ferir o outro, a nós mesmas e ainda fortalecer nossos ‘músculos psíquicos’”.

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