Adriana Aneli

Adriana Aneli é escritora e idealizadora do projeto Tempestade Urbana, autora de livros de poemas, crônicas e contos; colunista da Scenarium. Formada em Direito pela USP e pós-graduada em Direito de Família e Mediação de Conflitos Familiares.

“Se o tema é café, o gosto é amargo… Ou adoçado artificialmente? É quente e forte: cativante? Cafezinhos para unir, distrair e consolar… Ou acordar, revigorar – sempre correndo o risco de perder de vez o sono? Amor expresso convida para uma leitura rápida, cada dia um miniconto (ou muitos de uma vez, para os viciados): uma xícara, um conto ou a prazerosa e demorada pausa para o “café com arte” que Cristina Arruda preparou em ilustrações: traços que carregam um mundo dentro de si.
Cada narrativa é um instantâneo de amor ou de ódio, de humor ou melancolia, elaborada com grãos de música, poesia e cinema, como revela a “cafégrafia” ao final do livro.
Histórias que estão ali desde sempre, mas que nem sempre são notadas. Flagrantes de quem somos, poderíamos ou ainda queremos ser neste mundo de obrigações pré-fabricadas, em que mal temos tempo para um café”.

Com vocês: amor expresso

R$ 35

Conheça os outros livros da Autora

A construção da primavera

É um resgate da lírica helenística — a poesia de Safo e as canções de Bilitis — em que os elementos da natureza, do clima e da passagem do tempo marcam a psiquê da personagem. Alegria, melancolia, exaltação, recolhimento são as quatro estações e seu recomeço.

O sol da tarde

O sol da tarde é livro de recolhimento. Desenhado nos tons escuros da dor e do medo. Tempo de maturação e rumores.
O ritmo tem a delicadeza da respiração, mas nele, o pensamento está em carne viva. Ali, onde cada palavra é áspera e a memória é pontiaguda, o amor débil e tênue espia.
Na tarde morna, sussurrado entre cortinas de voal, surge o Sol – para logo em seguida se por. Conversa entre mim e aquele que se aventurar por meus versos de penumbra… Sem euforia. E em silêncio.

Tempestade urbana

Tempestade Urbana é um exercício de coletividade. O diálogo das artes é motriz de poemas de resgate. Aqui, o indivíduo se soma ao bem comum para só assim se transformar no humano repleto de possibilidades. Um livro de muros e horizontes, invisibilidade e plenitude. Um livro de amor pela cidade e pela arte urbana que brota, esplendorosa, do seu asfalto.

Coletivos da Scenarium…

Anselmo Vasconcellos

É popularmente conhecido por trabalhos em TV, tendo participado de mais de trinta programas diferentes nas mais diversas emissoras. Também possui uma extensa carreira no cinema brasileiro, tendo estreado em 1978, no longa Se Segura, Malandro!. De lá pra cá já atuou em mais de cinquenta filmes. Sua estreia profissional, no entanto, foi nos palcos, no musical Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, em 1973. Fez alguns trabalhos notáveis das décadas de 70 e 80 como O Segredo da Múmia (1983) e Eu Matei Lúcio Flávio (1979).

Casado há mais de vinte e cinco anos, possui três filhos: Isadora, Vittório e Isabella. É também autor do livro Comédia, A Arte da Irreverência, em parceria com a pesquisadora Raquel Vilela. De todos os seus trabalhos, aponta República dos Assassinos (1979), de Miguel Faria, em que interpreta um travesti, como o seu favorito.

“Aprendi a ser engenho de mim mesmo. Crio labirintos com o corpo, com a intuição, com a racionalidade e assim me transporto para outros, provoco, compartilho invenções, perdido dentro dele. Quem me acolhe ou me nega de alguma forma é a saída”.

Em Mia — a holandesa dos pés descalços —, o tempo e o espaço também são uma matéria flutuante. A história nos leva para os tumultuados anos 60, quando explode no Brasil, a Ditadura militar.
A história se inicia quando o personagem sai dos porões da Ditadura e emerge em vida. Embora sua alma ainda esteja atada ao breu. Sua pele impregnada pelo limbo dos excessos de um mundo onde a palavra LIBERDADE não é verbo. Substantivo, tampouco.
Nosso personagem-narrador-poeta-mendigo-malabarista é ferido em sua sensibilidade. E, nas trevas tatuadas em sua derme, uma única luz a incidir-resvalar é Mia. Personagem que se projeta para cima de nós — na condição de luz que nos fere os olhos. Somos convidados a nos acostumar com essa figura misteriosa, que vai se descortinando a cada página. Ela nos converte em personagem-narrador.

R$ 45

Conheça os livros do Autor

Comédia,  a arte da irreverência

Os autores nos convida a conhecer os muitos fatos da comédia no Brasil, no mundo e como a manifestação cultural cresceu em importância em nosso país, mas o estudo do tema não avançou no mesmo ritmo.
As pessoas gostam de rir, de contar com um alívio temporário para a seriedade do mundo. E por haver tanta gente ávida por uma boa gargalhada, é preciso existir quem ofereça diversão.

É possível criar especialistas para fabricar o riso?

Cartas de uma utopia

Cartografias afetivas (cartas a uma utopia) é um copilado de emoções, organizado por Anselmo Vasconcellos que propôs aos alunos da Oficina Libre um partilhar de suas experiências — em cartas, escritas de próprio punho, que colocam o leitor na condição de leitor-platéia — e nos permitem conhecem um pouco da magia por trás da engenhosa arte de ser outro, sem se perder de si enquanto acontece a metamorfose do fazer, sentir, insistir, persistir e convencer…

Quarta dimensão

É um livro de notas dividido em cadernos. São Fragmentos de ontem, hoje e amanhã. Uma espécie de manuscrito encontrado numa garrafa, como no conto escrito por Edgar Allan Poe, em que o personagem não sabe se encontrará possibilidade de transmitir seus escritos ao mundo. Mas até o último momento, ele escreve para lançar tudo de si ao mar…
Anselmo cumpre o ritual e o arremesso é feito… a garrafa segue em direção a praia, onde está o leitor, o melhor de todos os destinos.

Segundo desafio de Poesias

(TEMÁTICA SUGERIDA POR LUNNA GUEDES)

ESTe SERÁ O NOSSO segundo DESAFIO DE POESIAS COM TEMÁTICA DEFINIDA E MÉTRICA LIVRES, SENDO, PORTANTO, A ÚNICA EXIGÊNCIA QUE A OBRA SEJA UM POEMA.

REGULAMENTO

QUEM E COMO PARTICIPAR

– Poderão participar Poetas maiores de 18 anos de qualquer nacionalidade, residentes no Brasil e seus trabalhos deverão ser obrigatoriamente escritos em língua portuguesa (o que não impede o uso de termos estrangeiros no texto).
– Selecionaremos um mínimo de 09 participantes para este Desafio e esse número variará em função da qualidade de obras inscritas.
– O participante (poeta) deverá enviar 09 poemas em língua portuguesa, a partir do título proposto (andarilha) de maneira a formar uma narrativa única, ou seja, os poemas deve conversar entre si, de forma única e inédita.
– As obras deverão conter um título único e cada poema poderá ou não ser intitulado.
– Cada participante poderá inscrever uma única Obra por Desafio.
– A temática da Obras deverá estar em linha com o tema do Desafio, sendo que a criatividade e imaginação do escritor darão o toque e estilo ao trabalho.
– É de inteira responsabilidade do Autor a correção ortográfica/revisão do texto ou textos enviados para este Desafio, sendo este inclusive um dos critérios de seleção. Desta forma não será feita nova revisão do texto.
– As obras inscritas serão analisadas e selecionadas mediante avaliação de Anna Clara de Vitto, coordenadora do projeto, a convite da Scenarium.
– O envio do texto deverá feito única e exclusivamente por e-mail para scenariumlivrosartesanais@gmail.com.
– A obra deverá estar em arquivo Word (doc ou docx) em A5 – fonte Times New Roman, tamanho 12, espaçomento 1,25.

DIREITOS AUTORAIS

– Não haverá cessão de Direitos Autorais, ou seja, os trabalhos continuarão pertencendo a seus autores, entretanto os Poetas autorizam a comercialização de sua obra através do Desafio, abdicando de qualquer remuneração sobre sua obra.
– Os Poetas participantes responderão legalmente e individualmente sobre plágio, publicação não autorizada, calúnia, difamação e não autoria, isentando a Scenarium livros artesanais de qualquer responsabilidade sobre o conteúdo enviado para o Desafio.
– É de total responsabilidade dos participantes a veracidade dos dados fornecidos à organização.
– Ao se inscrever, o participante de antemão fica ciente e dá permissão e autorização para a publicação e comercialização de sua Obra (poesia), e a veiculação na mídia de seus nomes, imagens e textos, em sites, pela Scenarium livros artesanais, desde que dentro do contexto das Publicações da Scenarium e para benefício da maior visibilidade da obra e seu alcance junto ao leitor.

SOBRE A VENDA DOS LIVROS

– A Publicação do Desafio será composta dos textos selecionados e de minibiografia dos participantes.
– O livro será impresso nos padrões da Scenarium… um projeto será desenvolvido com exclusividade.
– A Comercialização do livro impresso da se dará através da Loja da Scenarium.
– Os participantes poderão adquirir os livros impressos por valor inferior ao Preço de Venda da Loja Online, desde que em volume mínimo de 10 exemplares. Para isso deverá solicitar orçamento, através do e-mail do Projeto.
– O livro impresso do Desafio poderá ser colocado em comercialização nas Feiras e Bienais, em estande da própria Scenarium, quando esta vier a participar.

CRONOGRAMA GERAL

– Final das inscrições: 30/05/2022
– Divulgação aos selecionados: 06/06/2022
– Data de Lançamento: 27/08/2022

Coletivo O Mapa de Vênus

R$ 35,

O Mapa de Vênus é uma correspondência poética… Cada poema impresso nas páginas desse Coletivo é uma resposta a Missiva envaida pela coordenadora do projeto Lunna Guedes as poetas convidadas a confeccionar uma narrativa em forma de versos…

Anna Clara de Vitto, Katia Castañeda, Mariana Gouveia,
Nirlei Maria Oliveira e Suzana Martins

Coletivo de contos eróticos

R$ 32,00

Organizado por Lunna Guedes, o Coletivo de contos eróticos “Na Esquina com o Filho da Santa” é uma incursão pela narrativa erótica. Os autores participantes — Adriana Aneli, Adriana Teixeira Simoni, Celso Suarana, Isabel Rupaud, Kátia Castañeda, Mariana Gouveia, Obdulio Nuñes Ortega, Roseli Pedroso e Virginia Finzetto — usam de toda a intimidade com as palavras para brindar o leitor com personagens movidos pelo desejo e situações em que se colocam ao perseguirem as suas vontades…

Carta a menina que fui na ciranda da vida

Ciranda, cirandinha
vamos todos cirandar!
Vamos dar a meia volta

volta e meia vamos dar

— cantiga popular —

Da minha janela, enquanto uma chuva fina cai, ouço na rua de cima as crianças da casa laranja brincarem. Imagino a roda se formando e os risos me leva até à minha infância. É nesse portal — dentro da minha imaginação — que te escrevo. Escrevo para você — a menina que fui — e que corre atrás dos irmãos e ri diante da roda que se forma. Perdi o anel de vidro em alguma história. Ganhei o verso bonito antes de ir embora para além da estradinha que serpenteava seguindo o contorno da floresta.

Misturo os momentos nessa ciranda insana — palavras da minha bambina — em que a vida me jogou. O rio secou lá para os lados onde nasci. Dizem que fizeram uma represa para instalar um monjolo — ou uma usina no Norte — e nos campos onde corri, a plantação de soja ganhou rumo afora, até onde o horizonte se mistura com o céu. Arriscam de vez em quando, entre uma safra e outra, o brilho dos girassóis e eles brincam de ciranda em torno do sol.

As mãos da minha irmã caçula a segurar com força enquanto rodopia no ritmo do vento. A palavra ciranda a ganhar contornos de união nos abraços trocados… tudo se transforma dentro da palavra mágica da saudade. Parece que além da janela, ecoa na rua de cima, o vento lá da menina que adorava cirandar e que dentro do tempo corrido, ciranda nas lembranças de lá.

Enquanto cubro a menina com o lençol de flanela para os dias de frio desenho o retrato na parede. A mãe e o pai de olho grudado em nós e o laço de fita a soltar da trança e a xícara a fumegar o chá de erva — doce.

Como as lembranças se chamariam se pudessem falar? Como seria se os álbuns de fotografias pudessem dançar com as cortinas?

As palavras cirandam no suspiro… e em frente da minha janela mora uma ciranda na praça que as crianças brincam. O relógio da matriz canta de hora em hora e de repente, eu cresci… Os balanços rodando, rodando. E o mundo acontecendo lá fora.

Uma pessoa levanta, outra senta. As sombras parecem pessoas perdidas no lugar. Uma moça passa correndo. O celular ilumina o rosto de alguém na noite em que a chuva fina lembra a frase da mãe, que mandava a gente correr para dentro — enquanto a chuva de molhar bobo molhava a gente – ninguém queria ser bobo na voz da mãe… A noite é esse brinquedo que risca o chão. E a ciranda do tempo, essa senhora que fica muito tempo sem fazer movimento e depois ganha velocidade da menina que um dia eu fui.

Em frente da minha janela moram palavras que viram cartas que é uma multidão. Acho chique nomear a dança de ciranda e endereçar cartas que talvez nunca envie. Que talvez leia em voz alta andando em voltas no quintal e quem sabe descobrir o nome do futuro dentro dos olhos de quem já foi criança comigo. Eu não sei, mas em dias de chuva essa menina parece apenas um vulto. Em dias normais é apenas o gesto do meu pai que cantava baixinho a cantiga popular enquanto seguia estradinha afora rumo ao horizonte.

Mariana Gouveia — adoradora de lua – é de lua – vive em todas as fases no equilíbrio entre o sonho e a realidade. Entre o que inventa e o que ditam para ela fazer. Tem nas costas a metamorfose das borboletas, os desafios dos bichos e de noite se fantasia de escrever.

Pinta o dia com esperança e brada a liberdade que conquistou as duras penas. Tem os pés no chão – literalmente – e as mãos a voar. Devia ter tido asa, já que vive a fantasia dos voos. Cria listas mas nunca cumpre elas. Quebradora de regras desafia a arte de viver.

A Ciranda das Mulheres ‘sóbrias’…

 a mulher na literatura

Devo escrever sobre uma ciranda. Ou estar nela? Dançar conforme a música da vida ou seguir ao embalo da própria?  Sigo a intuição e a intenção,  com integridade e intensidade…

Devo escrever sobre essa grande ciranda de mulheres que escrevem… E que lêem. E que se lêem. Deus nos dê, enfim, a liberdade da mulher livre no livro! Dançando a ciranda da palavra dita, sentida, vivida até a última  gota do seu suor, do seu sangue, da sua lágrima, do seu ventre lago quente de vidas…

Clarissa Pinkola Estés, autora do célebre ‘Mulheres que correm com os lobos’, também escreveu, em 2007, ‘A ciranda das mulheres sábias’, no qual trata acerca do feminino e da maturidade, da velhice e da sabedoria da velhice feminina. Penso que aqui — nesse breve relato — minha ‘ciranda’ será mais específica. Quero falar da ‘sobriedade’ (moderação,  temperança,  equilíbrio) do ato de escrever — no mais improvável sentido do termo — é que fui incumbida de tratar, em breve ciranda de linhas, sobre a mulher na literatura, através de um olhar específico de quem escreve (ainda que inéditos sejam meus escritos no meio literário oficial) e/ou lê. Devo de antemão esclarecer — sóbrio é o indivíduo que está consciente, firme na concepção de seus atos e pensamentos… Não, mas não quero pensar na mulher como simples sujeito de atos controlados, disciplinados, contidos, restritos. Não. Que sejam também muito bem-vindas todas as loucuras que nos avizinham! Porque:

Lugar de mulher
é na asinha
livre leve solta
concentrada ou absorta.
Modo de usar:
asas à indignação.(*)

Sendo assim, lugar melhor não há para a mulher: a literatura feminina exige passagem! Clarice Lispector muito bem sabia disso, e disse: “Por caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado”.

Mulheres sempre escreveram. Arrisco dizer que escreveram primeiro do que os homens, embora lhes tenha sido negado o aprendizado da escrita/leitura por longo tempo… Mas mulheres escrevem desde o princípio (é bom lembrar que já ‘no  princípio era verbo!’) — afinal, dar à luz não é escrever (inscrever) no mundo a vida — o verbo? Parir um filho, parir um livro, para o seio(anseio) do mundo…

Milhares de mulheres escrevem. Milhões de mulheres lêem. É preciso resistir. E prosseguir… Enquanto isso, uma pergunta central ainda lateja em minhas veias: como sinto, consumo, absorvo a literatura escrita por mulheres? Penso que meu olhar seja mais vasto enquanto leitora… Outrora disse Kafka que “um livro deve ser um machado para quebrar o mar congelado dentro de nós” (citado por Estés, in: Libertem a mulher forte, Rocco, 2011, p. 7). Devo então quebrar meus gelos internos, fazendo-me derreter na emoção do verbo, quando este machado (de letras) atinge-me, ao lento da brisa, ou mesmo de súbito, no hemorrágico do verbo, bem fundo, o meu ‘sótão interno’ (sorrateiro) de treinar equilíbrios… Assim está feita a missão do livro… Talvez ainda me atreva a outra vez repetir Clarice: “Minha vida me quer escritor e então escrevo. Não é por escolha: é íntima ordem de comando” (de “Um sopro de vida”, in: As Palavras, Curadoria Roberto Corrêa dos Santos, Rocco, 2013, pg. 13). Então está combinado, entre mim — aquela que lê — e aquela de mim que também ousa escrever — o ato de absorver leituras escritas por mulheres.

Escrevo (e leio) como mulher. Escrevo porque minha garganta não suporta palavras à beira de serem ditas. Escrevo porque em mim já não cabem incertezas da vida, incontáveis descompassos, instrumentos de medição de nós mesmos no mundo. Escrevo porque me atrevo, me arrisco, me modifico. Entre um dia e outro, sou um sussurro, um suspiro, um ponto de interrogação. Escrevo porque sou rascunho, obra não terminada, predestinada ao final do capítulo. Escrevo porque nascem palavras deixadas à margem do precipício do mundo, não ditas, desditas, no céu da minha boca, no véu da minha vida. Escrevo porque vivo. Estou viva porque escrevo. Por tudo isso leio. Releio. Decoro. Mulheres, homens, mulheres. Afinal, “seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta/com quem alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?” — Fernando Pessoa, Obra poética, Nova Aguilar, 2001, p. 394.

Como se dá, portanto, meu olhar sobre essa realidade, nessa tão vasta ciranda das mulheres ‘sóbrias’ e loucas e sábias e vestidas da vastidão de mundo? Muito além da margem, da imagem ou da imaginação:

Mulher de Vênus
teu lugar pleno
no mundo
no fundo
na superfície
na borda
no centro
ao redor
transborda
comporta
conspira
transpira
respira
inspira.

Mulher Afrodite
acredite
melhor
inteira
completa
repleta
partida
desfeita
refeita
vestida
desnuda
alheia
anseia

Mulher Maria
Joana
Madalena
Geni
teu lugar é aqui:
legar
negar
rasgar
entregar
existir
resistir
parir
partir
largar
Alargar
liberdade
na verdade
igualdade
na cama
na calma
na alma
na vida
no caminho
no destino
destemido.

Mulher
sem medos
sem modos
sem metades
sem contornos
sem retornos
sem condutas
sem culpas
sem limites
sem juras
sem juros
sem muros
sem insultos
parindo
desejos infinitos
cara ou coroa
depois da margem

Nic Cardeal — na grafia da vida que se fez minha, não sei dizer ao certo a que fim eu vim. Só sei que vim. Nascida depois de um ovo partir-se ao meio, cheguei ao planeta em parceria. Talvez por medo de descer por aqui sozinha. Andei por lugares diversos, contei estrelas, juntei pedrinhas (e livros) pelos caminhos. Sou desajeitada. Calada. Quase esquisita. Minha voz tem som de silêncios.  Enquanto não consigo dizer-me muito, faço de conta que me faço em palavras. Por isso escrevo. Meu manual de sobrevivência.