kit Rozana Gastaldi Cominal (com 03 livros)

Mulheres que voam

É plano de voo e matéria literária para os sentidos, cabe a quem lê percorrer vagarosamente cada poema e apreciar os detalhes artísticos da obra, respirar impregnado de cada verso e sentir no corpo o atravessamento pelos sentimentos recolhidos do íntimo da Autora em cada poema.

Nas nuvens

Te convida a olhar para o céu e espiar os desenhos de nuvens que se forma através das palavras dos autores convidados para essa deliciosa edição: Isabel Rupaud, Lua Souza, Mariana Gouveia, Nirlei Maria Oliveira e Rozana Gastaldi Cominal…

Barquinho de papel

É um Coletivo de prosa que convida o leitor a navegar pelas emoções que um pedaço de papel dobrado, vincado é capaz de provocar em quem escreve e compartilha ilusões…

R$ 50

kit Nirlei Maria Oliveira (com 03 livros)

Palavr(Ar)

Na poesia de Nirlei Maria Oliveira não encontraremos frases-versos de efeito, ou a figura de estilo que visa impor uma imagem de grande aparato. Os poemas — divididos em três partes e ardilosamente somados — que compõe o PalavrAr… exibem uma poeta alinhada com o contemporâneo.

As Estações

Um coletivo de poesias escrito a 4 mãos: Flávia Côrtes, Mariana Gouveia, Nirlei Maria Oliveira e Suzana Martins. Quatro mulheres e seus mundos reais e inventados por onde passeamos através das emoções que fazem da pele, da alma, do cuore e da memória: solo fértil.

O mapa de vênus

É uma correspondência poética… cada poema impresso nas páginas desse Coletivo é uma resposta a Missiva que foi envaida pela coordenadora do projeto Lunna Guedes as poetas convidadas por ela… Anna Clara de Vitto, Katia Castañeda, Mariana Gouveia, Nirlei Maria Oliveira e Suzana Martins.

R$ 50

Kit Isabel Rupaud (com 03 livros)

De Pato a ganso

É o primeiro livro da autora que gosta de questionar a realidade e marcar o passo com observações peculiares acerca do mundo que gira porque ao contrário do que dizem, é esférico e dá voltas ao redor do sol e de si mesmo…

Casa de vidro

Reúne um conto que leva a outro conto e mais outro e mais outro, escritos por Adriana Aneli, Carol Favret, Flávia Côrtes, Isabel Rupaud, Mariana Gouveia e Obdulio Nuñes Ortega…

Casa de vidro percorre uma única realidade, a de Dona Ioiô… uma personagem que golpeia o destino e urde sua própria trama, alinhavando realidades paralelas como se fosse a mão que escreve a história de cada um.

Na esquina com o filho da santa

George Bataille escreveu: “Não há erotismo sem transgressão”… é a partir dessa preciosa premissa que as história se conectam, proporcionando ao leitor a sensação de busca de algo que não se tem… o Outro.

R$ 50

Kit de Lua Souza (com 3 livros)

Estratosférica

Vai te gerar uma identificação inimaginável, fazer você flutuar com a leveza das poesias, te dando a visão do céu estrelado da Lua, essa escritora ímpar que transforma momentos cotidianos em poemas leves, críticos, intimistas e com uma pitada de bom-humor.

Essa arte é uma imersão no mundo dela, no meu mundo, e no seu!
Jéssica Oliveira (Pow)

Barquinhos de Papel

Coletivo de prosa que convida o leitor a navegar pelas emoções que um pedaço de papel dobrado, vincado é capaz de provocar em quem escreve e compartilha ilusões…

O ano do gato

Coletivo de contos que tem como Norte o conto escrito por Edgar Allan Poe… participaram Flávia Côrtes, Isabel Rupaud, Lua Souza, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Obdulio Nuñes Ortega, Roseli Pedroso e Rozana Gastaldi Cominal.

R$ 50

Kit de Margarida Montejano (com 03 livros)

Fio de Prata

Reúne sete contos ilustrados pelo artista plástico Ruy Assumpção, compostos por experiências reais e imaginárias, permeadas pela fantasia que a poética da vida e da literatura ilumina. Nos contos, o leitor encontrará lampejos de memórias do universo feminino que conduzem, de forma livre, à reflexão.
Os contos do Fio de Prata, publicados pela Scenarium, livros artesanais, abordam a vida na tênue linha da existência.

Nascer pela segunda vez

Cada um dos cadernos — devidamente amarrados — formam um único diálogo, como se cada poeta tivesse atendido a um convite — um café no meio da tarde, num desses lugares bem merecidos — para um diálogo entre pequenos e pesados goles. Há espaço para o riso, a lágrima… o suspirar e pequenas pausas.

Participaram: Adriana Teixeira, Manoel (Manogon) Gonçalves, Margarida Montejano, Nic Cardeal, Nirlei Maria Oliveira, Suzana Martins e Rozana Gastaldi Cominal.

Estrada para os domingos

Foi o oitavo livro de 2021 da Scenarium 8 que convidou Adriana Aneli, Anna Clara de Vitto, Caetano Lagrasta, Flávia Côrtes, Joakim Antônio, Isabel Rupaud, Katia Castañeda, Mariana Gouveia,
Margarida Montejano, Nirlei Maria Oliveira Obdulio Nuñes Ortega, Roseli Pedroso e Susana Martins para preencher as páginas desse coletivo com poesia e prosa poética…

R$ 50

kit Suzana Martins (com 03 livros)

Inversos

…é a minha pele em chamas, a poesia liberta, a alma exposta e o sentir revelado em conotações. Um livro pelo avesso, um verso fora da letra, o arrepio da derme e o sentimento dilatado. Inversos é para ler e deixar a alma pulsar além das entrelinhas.

Colheita

Foi o terceiro livro de 2021 da Scenarium 8 e reuniu as poetas: Adriana Aneli, Adriana Eliza Bozzetto, Anna Clara Vitto, Chris Herrmann, Kátia Castañeda, Mariana Gouveia e Nic Cardeal que escreveram a partir dos ciclos da Natureza e o resultado foi um dos mais belos livros do projeto.

O mapa de Vênus

É uma correspondência poética… cada poema impresso nas páginas desse Coletivo é uma resposta a Missiva que foi envaida pela coordenadora do projeto Lunna Guedes as poetas convidadas por ela… Anna Clara de Vitto, Katia Castañeda, Mariana Gouveia, Nirlei Maria Oliveira e Suzana Martins.

R$ 50

Kit Mariana Gouveia (com 03 livros)

Colcha de Retalhos

Mariana Gouveia nos brinda com a premissa de um instante único… em que tudo se alinha perfeitamente e os momentos geométricos se equilibram — como os planetas — no fio de trapézio de uma única palavra…
Despida de gravidade, a menina-mulher-poeta — contadora de histórias — flutua nessa trama da qual é personagem-persona-autora que se passa em um mundo transitório, sempre em movimento porque o mundo dá voltas e, em uma dessas voltas…

O mapa de Vênus

É uma correspondência poética… cada poema impresso nas páginas desse Coletivo é uma resposta a Missiva que foi envaida pela coordenadora do projeto Lunna Guedes as poetas convidadas por ela… Anna Clara de Vitto, Katia Castañeda, Mariana Gouveia, Nirlei Maria Oliveira e Suzana Martins.

Na esquina com o filho da santa

George Bataille escreveu: “Não há erotismo sem transgressão”… é a partir dessa preciosa premissa que as história se conectam, proporcionando ao leitor a sensação de busca de algo que não se tem… o Outro.

R$50

Kit Flávia Côrtes

Amor sem mestre

Conta a história de uma jovem romântica. Luziana, como muitas meninas apaixonadas, imaginava viver um conto de fadas. Mas a carruagem virou abóbora muito antes da meia-noite. Sem fada madrinha ou sapatinho de cristal, ela precisou encarar o sapo que beijou pensando ser um homem.

As Estações

Um coletivo de poesias escrito a 4 mãos: Flávia Côrtes, Mariana Gouveia, Nirlei Maria Oliveira e Suzana Martins. Quatro mulheres e seus mundos reais e inventados por onde passeamos através das emoções que fazem da pele, da alma, do cuore e da memória: solo fértil.

Casa de Vidro

Reúne um conto que leva a outro conto e mais outro e mais outro, escritos por Adriana Aneli, Carol Favret, Flávia Côrtes, Isabel Rupaud, Mariana Gouveia e Obdulio Nuñes Ortega…

Casa de vidro percorre uma única realidade, a de Dona Ioiô… uma personagem que golpeia o destino e urde sua própria trama, alinhavando realidades paralelas como se fosse a mão que escreve a história de cada um.

R$ 50

KIT ADRIANA ANELI (com 03 livros)

amor expresso

Cada narrativa é um instantâneo de amor ou de ódio, de humor ou melancolia, elaborada com grãos de música, poesia e cinema, como revela a “cafégrafia” ao final do livro.
Histórias que estão ali desde sempre, mas que nem sempre são notadas. Flagrantes de quem somos, poderíamos ou ainda queremos ser neste mundo de obrigações pré-fabricadas, em que mal temos tempo para um café”.

O sol da tarde

O sol da tarde é livro de recolhimento. Desenhado nos tons escuros da dor e do medo. Tempo de maturação e rumores.
O ritmo tem a delicadeza da respiração, mas nele, o pensamento está em carne viva. Ali, onde cada palavra é áspera e a memória é pontiaguda, o amor débil e tênue espia.
Na tarde morna, sussurrado entre cortinas de voal, surge o Sol – para logo em seguida se por. Conversa entre mim e aquele que se aventurar por meus versos de penumbra… Sem euforia. E em silêncio.

Mosaicum

É um coletivo que reúne a poesia e a prosa de Adriana Aneli, Adriana Eliza Bozzetto, Anna Carriero, Anna Clara de Vitto, Caetano Lagrasta, Flávia Côrtes, Isabel Rupaud, Joaquim Antônio, Katia Castanesa, Ligia C. Libâneo, Lunna Guedes, Mariana Gouveia, Manoel Gonçalves (manogon), Nic Cardeal, Nirlei Maria Oliveira, Obdulio Nuñes Ortega, Roseli Pedroso e Yara Fers.

R$ 50

Plural  | Um dia comum

Nirlei Maria Oliveira

olho para janela e a chuva ainda persiste 
as prateleiras continuam com o seu tom cinza insosso
os livros permanecem no mesmo lugar de sempre

parecem me olhar julgar e condenar
sinto a revolta dos autores 

muitos indignados com seus poucos leitores
ou nenhum leitor ávido

outros não se conformam com as classificações
limitantes e invisíveis para o leitor

vários empoeirados e esquecidos em uma estante bem no fundo
quase ninguém vai até lá

poucos nem tão poucos assim 
perdidos para sempre

alguns felizes, mas em silêncio inveja roxa ronda as estantes

não tenho respostas para tantas questões dos autores
afinal, hoje é sexta!
melhor fechar a porta da biblioteca e ir embora

(sonho mesmo é com a Biblioteca de Babel de J.L.Borges)

Plural  | Desejos

Obdulio Nuñes Ortega

acordei om o desejo explicito de preservar
a lembrança de meu último sonho
e como acontece quase sempre
me surpreendo com a minha presença física
diante do espelho que não me revela
não foi esse que sonhei…
quem é esse sujeito que me perdeu?
mergulhei o rosto na água fria espalmada
ventos do centro seco do mundo
o desumedece  em sorriso crispado
inicio mais um dia em que a vivência sonhada
se perderá pouco a pouco
até restar a sensação de que não vivi
permanente espectro de que ainda não nasci
morte a caminho cada vez mais próxima
curiosidade que aumentada de como será
já se não é em vida porque morremos a  cada a dia
quase um anticlímax uma sombra
o momento abrupto do desenlace
traz tanto encanto dramático que o imagino
tantas vezes sendo comum feito um passarinho
que para de voar fecha os olhos e cai de lado
saio em corrente de motor à diesel
no movimento incessante do trânsito
sou carregado enclausurado em grupo de desconhecidos
competindo todos pelo espaço asfáltico
carros em profusão como se houvesse uma fonte
inesgotável de  potenciais assassinos em série
fantasio que teremos o mesmo destino imediato
a mesma curva mal feita
o atropelo dos instantes impermeáveis
ao cósmico sentido de estarmos seres imortais
e desejo de ser mais
carrego em meu bolso temas
frases escritos sentenças poemas
proseio com o meu imaginário que bebe álcool
ou outras drogas só assim para entender
de onde vem tanta ilusão
desmedida assim como o caminho
que percorro sem rumo em busca de desejos
sinónimo de esperança…
o que sonhei mesmo?

Plural  | Sobre Sobra

Manoel Gonçalves
Manogon


Sinto-me
E contemplo a vastidão
Sento-me
E reparo a devastação
Sou floresta de um homem só
Tronco decepado
De promissora plantação
Pensamento solitário
Frio, cinzento, sem folhagem
Senhor minúsculo do tempo
Sentado sobre terra
Agora plana
Sem picos e desfiladeiros
Sem planícies e planaltos
Sem poros e reentrâncias
Só bobagem
Sou peça solta
Sem pino, parafuso
Graxa e funcionalidade
Apenas engrenagem
Largada e esquecida
Sento-me sobre minha obra
Sinto-me apenas a sobra
Penso, penso
E nesse vazio
Será que existo?

Plural A cidade da minha escrita (2)

June Camargo

Dentro do peito habita cada uma das minhas palavras. Minhas e de muitas mães. Seus filhos carregam não como um adjetivo, mas um jeito todo seu de ser, o termo autista. Aos olhos do mundo o diferente, o deficiente.

Aos olhos do mundo a mãe guerreira, uma pessoa muito especial, escolhida por Deus. Nossas palavras secretas apontam em outra direção. Somos tão humanas e cheias de imperfeições e fraquezas como qualquer outra mãe ou pai de um filho neurotípico.

Mas a sociedade cria convenções arbitrárias.
Ou seria um jeito de acolher diferenças
conforme as próprias conveniências?

Bem mais simples e objetivo propagar o mito da mãe heroína do que perguntar como poderia ajudar e estender a mão. Dispor de uma fração do próprio tempo para que ela tenha algum só dela ou uma escuta amiga. Mães desejam transbordar sentimentos, dúvidas e medos em palavras. Sem esperar absolutamente nada em troca. Apenas a chance de escrever no vento perguntas que não têm resposta, ou conflitos legítimos que permanecem silenciados e invisíveis. Eles pesam bem mais do que muitos sacos de  areia. As dores que sobrevêm são resultado não de um cansaço físico que uma boa noite de sono repara. São dores da mente, da alma e do coração. Elas exigem de nós uma frequência fiel ao que chamo de cross-fit interno. É ali que palavras não ditas são processadas com sabedoria para não ferir o outro, a nós mesmas e ainda fortalecer nossos “músculos psíquicos”.

Cada palavra é traz uma amplitude de nuances muito maior do que o sentido denotativo. Enquanto observa as necessidades intrínsecas à condição dos filhos essas mães se submetem a um número de emoções e pensamentos. Raramente tomam plena consciência deles. Desde qual caminho e atitude adotar para favorecer ou evitar determinado comportamento, até se compensa expor sua verdade para um olhar que julga ambos.

É comum escolher ser indiferente. Por fora.
Uma forma de respeito e instinto de autopreservação.

A bem intencionada freira me acolheu à sua maneira. Disse pra eu ter fé e orar mais pois Deus curaria minha filha. Minha escrita precisa ser revisada internamente.

Ou amasso logo a folha e lhe enfio goela abaixo?
Respiro. Conto até doze.

Uma representante do divino bem podia trazer mais luz para o meu caminho! Recorro à conotação. A cidade dos escritos da freira comporta apenas essa verdade.

As palavras dela habitam um cômodo cuja janela contempla apenas um pequeno recorte de toda a paisagem que cerca aquela morada.

Merece respeito porque pertence a ela.
Mas não minha concordância
porque honro a minha própria verdade.

E onde está a verdade? Dentro de mim e de você e merece existir e ser respeitada. A verdade está em cada diferença que encontramos entre nossos filhos que o mundo supõe “ter a mesma coisa”.

A verdade está no fato de nós mães de filhos considerados diferentes buscarmos semelhanças entre eles e encontrarmos tanto em comum sobre nós mesmas.

Plural  | Fluido desapego

Flávia Côrtes

Passado
Solo fértil
a ser reflorestado
Ervas daninhas 
arrancadas
do universo de dentro
abrindo espaço
para o vazio
semeadura
Promessas de árvores 
lançadas à terra
por passarinhos
Raízes a serem cuidadas
para alcançar o céu
Nada cresce por milagre
Sementes precisam 
de tempo-alimento
para transpor a casca
assim como casulos 
não se rompem do nada
Desprender-se
do envelhecido
amortalhado
Ganhar liberdade-adubo
do próprio amor-irrigação

Plural Seja gentil

Margarida Montejano

Num encanto de encontro,
um aceite prazeroso. Um beijo!
Uma gentileza que azeitou o meu tempero,
adoçou o meu café,
deu ponto,
no meu risoto de queijo.
Nota mil!

Puxou a minha cadeira,
abriu, para mim a porta,
mandou flores em dia comum!
Óh vida prazenteira
que me presenteia em campos floridos,
sem pedir retorno algum!

Grata, óh mãe natureza que, seja noite ou seja dia,
me ama com poesia e me adorna, com total gentileza!

Quem dera, óh tempo presente!
Que a vida seja gentil, com esse povo sofrido,
que clama por paz,
Amém!

Plural  | Poesia

Suzana Martins

Teu olhar insolente
aquece, marca e
rasga a minha derme.
Teus lábios sedutores
confunde, entrelaça e
atiça a minha sede.

Sem pudor, entrego-me!

Teu sorriso, deveras perverso,
suplica por um beijo tentador.
Sem reservas, nossos lábios se tocam.
Teu corpo, esta teia perigosa,
aquece as minhas vontades.

Entrego-me a ti!

Face a face.
Beijo a beijo.
Olhos nos olhos.
Desejos. Lascívia.
Sinto o teu toque e
teu calor incendiar
a nudez arrebatadora
da minha pele.

Entrego-me em chamas,
sem nenhum pudor.
Rendo-me ao prazer
vulcânico e sedutor
do teu querer.

Plural  | É preciso estar embriagado

Meu caro Poeta,

Parei em suas linhas ao arrumar as prateleiras no meio dessa tarde, quando seu livro se precipitou ao toque — oferecendo-se para leitura. É abril por aqui… e esse mês não lhe pertence. É de Eliot que o intitulou como ‘o mais cruel dos meses’… um precioso verso, não achas?

Eu não resisti ao teu ‘convite’…
Abandonei a arrumação e fui para a cozinha:
Preparar um café… aceitas?

…‘como o mendigo exibe a sua sordidez’ — toda vez que eu leio “les fleurs du mal” penso em tua Paris… mais humana, menos luz. As pessoas tinham tempo para acenar umas as outras. Era possível dialogar as poucas notícias do mundo. Apreciar os artistas de rua… se oferecer como modelo ao pintor desconhecido, apenas pelo prazer de se deixar ver-retratar e nada mais.

…‘fiéis ao pecado, a contrição nos amordaça’ — será que foi após a passagem do famoso-arquiteto-urbano por lá… que tudo mudou? Ou será que outros antes dele, agiram sem serem vistos?

Remendaram tua Paris… e a fizeram Luz.

Pouco humana — uma estranha, que eu conheci sem, contudo, reconhecer-te naquele mal elaborado traço, onde multidões de ninguém se orientam. Eu andei com o teu livro em mãos por várias ruas… museus, galerias e nada.

E vejo o mesmo acontecer na cidade em que vivo os meus dias contemporâneos. Seria uma inspiração tardia  ou seriam os tais homens a agir nas sombras?

Eu não lhe disse… mas estamos a bordo do século XXI e lhe confesso que é embaraçosa tal afirmação. Tudo por aqui se repete, como se a vida, o mundo andasse em círculos. A cidade luz de Haussmann sobreviveu com suas luzes… mas querem arrancar dela o seu bem mais precioso… a sua essência: a liberdade. Querem calar os pincéis. Quebrar os grafites. Rasgar cartazes. Mutilar telas-pessoas.

… ‘a tolice, o pecado, o logro, a mesquinhez’ — proibir voltou a ser Palavra de Ordem. Tudo orquestrado por Senhores que erguem a voz para defender a tal: ‘família tradicional’… aquela que zela pela moral, bons costumes e que censurou a sua poesia. Os exemplares foram todos recolhidos. E você foi apontado e condenado por ofender a moral pública. Um subversivo.

…‘em meio às hienas, às serpentes, aos chacais’ — e esses senhores, meu caro poeta… estão a vencer. Uma nova forma de censura já se faz notar. Voltaire não tem mais espaço entre nós. A filosofia do homem está fora de moda. Ainda é possível acreditar na estabilidade das essências e na desordem da história, mas não do mesmo modo que Voltaire.

Desapareceu o teatro da perseguição, meu caro. Mas não a perseguição em si. O auto da fé virou instrumento nas mãos de uns e outros; discretamente ignorado pelos homens de sempre.

Fala-se no povo e eu recordo os romanos.

Uma passagem bíblica que condena um inocente e liberta o culpado. Repete-se até as falsas profecias, meu caro.

Outro dia, em uma conversa, a pessoa com quem tentava dialogar, defendeu-se… usando o discurso conhecido de ser a favor da educação.

Uma pessoa branca, num mundo solúvel a defender a educação do povo.
Respirei fundo e pensei em Voltaire.
Onde estão seus inimigos, agora?

Eu espio pessoas do alto de seus discursos inflamados, tão certos e definitivos… e não digo palavra. E sei que não sou a única a sentir cansaço. Essa gente só quer dialogar com iguais, tão acostumadas as mesmas falas — repetidas incansavelmente — que estão.

É mais agradável quanto concordam
com a gente ou dizem o que vai
em nossa mente, alegam.

Eu prefiro ouvir um discurso contrário ao meu, mas banhado em lucidez. Como uma conversa bêbada é boa de se ouvir… Por isso, você preferia as horas no gargalo.

Como não desfruto do mesmo gosto, opto por sorrir e acenar… Sair de cena, fazer silêncio — como recomenda uma poeta contemporânea ou como faziam as moças vitorianas.

Imagino sua gargalhada!

Mas é cansativo existir nesse tempo, lhe asseguro… embora — insistente —, ainda percorra os arredores de todos os corpos-mambembes, convertidos em marionetes a marchar rumo a esquerda-direita.

Sinto falta da ironia de Voltaire, meu caro e do seu vasto material linguístico. Combinação perfeita entre tempos e espaços. Você foi moderno e contestou a burguesia e suas coisas de ontem. Acabou censurado por esse agente que infecta a sua Paris com prédios charmosos e passadouros banhados de sol. Tudo muito elegante, sem a presença de pessoas de verdade. Essas têm horas marcadas para chegar e sair. Que triste ver o seu flâneur limitado ao estrangeiro e não mais aos parisienses, decapitados.

Tanto faz… mais café?
…‘é o diabo que nos move e até nos manuseia!’.

Lunna Guedes

Nasci em Gênova, no ano de 1981… o mês era novembro e vim ao mundo sob a regência de sagitário, numa casa com três números, cuja soma sempre me intrigou. Aprendi a ler e a escrever na mesa da cozinha. Fui para a escola aos seis anos e não me saí muito bem. Mas fui até o fim e conclui todos os estudos… atualmente escrevo e bebo café, não necessariamente nessa ordem…

Plural  | Meu lugar no mundo

Bambina,

Enquanto te respondo ouço I’am not the Only one, na voz de um cantor coreano e revisito meu passado. Lua de papel fez-faz isso comigo e agora os três livros que compõem a história me observam no canto da mesa — ou eu a eles — e penso na sua missiva e nos personagens que você cita nela. Você sabe do meu carinho por Alexandra e como sua personagem me tocou. Não sei se foi empatia ou por que em algum momento me comparei com ela.

Eu fui Alex. Embora soubesse exatamente o que estava sentindo e encarasse isso de forma natural — até certo ponto — me vi envolvida por uma Raíssa.

Ana era esse trovão azul que você sentiu em Raíssa e era imensa, cobria qualquer lugar que estivesse com sua presença. Ana era real e era de Marte e eu? Ah, eu era a menina careta criada na roça, com tantas coisas embutidas dentro de mim, criada nos preceitos da igreja católica. Só por isso você pode imaginar que tudo fora dos “padrões” convencionais era considerado pecado por minha família.

A palavra pecado era pronunciada tantas vezes em casa que até alguns pensamentos me levava a rezar as 10 ave-marias — que o padre que visitava a fazenda duas vezes por mês nos impunha — antes mesmo de confessá-los e até isso, era considerado pecado.

Sempre relutei com os rótulos que designa a opção sexual de alguém. Lembro-me de que algumas vezes, por estar sempre de macacão era chamada de ‘sapatão’ pelos colegas de escola, já no ensino médio. Na época, nem entendia direito a palavra. Eu havia chegado recentemente da roça, criada distante de um grande centro e não sabia grandes coisas sobre o que acontecia fora das cercas da fazenda do meu pai. Mas sempre achei que o amor não precisava de rótulos ou jargões. Nem de sexo determinado… Mas, não ousava falar.

Talvez, por isso, fui compreensiva com Alex, no início. Eu era igual. Podada, medrosa e sem coragem. Talvez usasse a educação de uma família tradicional goiana para justificar o medo quando me vi encantada com Ana.

Mas, de repente, minha voz ganhou coragem e foi como se pulasse de um trapézio e dissesse: que se dane o mundo e os convencionais. Antes disso, havia engravidado do “primeiro namorado” na cidade grande e ele não reconheceu o filho, que morreu ao nascer. Me transformei em tantos personagens dos livros que lia que me perdia nos sentimentos.

E foi aí que o universo me ligou à Ana. Tanto para mim, quanto para ela era a primeira vez desse amor feminino que nos unia. Ela era mais corajosa do que eu e usávamos a poesia para nos fortalecer. Mas, ainda assim, ela era demais para mim. Eu só me sentia segura dentro de quatro paredes e me refugiava no medo de que minha família descobrisse o que eu era. Mas, o que eu era? A filha que ficou responsável pelos irmãos mais novos depois que a mãe morreu e que as irmãs mais velhas colocaram para fora de casa quando descobriram que eu amava outra mulher citando que eu estragaria meu futuro?

A mulher que sabia o que queria, sem perder a responsabilidade que me foi exposta tão cedo?

Para elas, eu era a rebeldia da adolescência em pessoa e para mim, eu era a liberdade que pensava em apenas amar. Sem rótulos ou culpa. Queria ser apenas a mulher que amava. Não a bissexual, a sapatona ou outras linguagens de gêneros que surgiram depois, porque para mim, não era o gênero que me importava. Mas o que eu estava sentindo.

Embora já tivesse tido namoros com rapazes e tivesse até engravidado de um, naquele momento, o amor me movia em outra direção. Ana. De Marte.

Hoje, parece uma história de ficção e Ana era tanto que o nosso lugar ficou pequeno e ela ganhou asas. Viajou para o exterior e eu fiquei só.

O envolver com outra mulher foi considerado por minha família como coisa de adolescente. Ana era a ‘culpada’ por se aproveitar de mim e mesmo assumindo tudo fui ignorada. Acho que sou até hoje.

Então, quando li Alex nas suas palavras eu quis abraçá-la. Até certo ponto eu a entedia… Não é fácil quebrar algumas barreiras. É preciso coragem e talvez, Alex não tenha conhecido alguém para ser exemplo.

Mas, quando Anne na sequência da sua história, vi ali meu reflexo mais puro… eu respirei várias vezes ao ler sobre Anne. Não havia como não me ligar a ela. A Alex era “meu passado” rabiscado em gestos tímidos e palavras secretas. Visão de uma cidade grande que não me cabia, mesmo em alguns momentos me sentindo tão pequena, sem encaixe no mundo.

Anne, possuindo o olho das certezas era eu descobrindo que podia falar abertamente para o homem ao meu lado e que eu escolhi para ser meu companheiro e ele entendia e era cúmplice da história que se desenhava para mim, ouvi dele que eu não precisava de definição nem de desculpas para viver o que queria.

Talvez, faltou apenas à Anne — diferente de mim — o marido que a escutasse e aprendesse a dividir os sentimentos. Ele me fez grande e maior do que a cidade e seu povo que estranhava tudo. Ele segurou minha mão e me seguiu quando Ana voltou.

Em muitos momentos, também me senti como Anne minguando, daí veio um sol que brilha quando a lua em seu estado minguante ainda se prepara para se esconder e comecei a ser dona de mim. Me reinventei e vivi o meu amor de livro. Um amor que conto em Colcha de Retalhos. Sem rótulos, sem pressão, sem denominação. Apenas amor.

Quando você cita sobre os elementos que as unia eu percebo que é o mesmo elemento que me ligou a elas e à minha história.

Acho que há muitas Alexandras, Raissas e Annes por aí. Muitas, escondidas, como eu fui por um tempo. E acho que a ficção me colocou dentro do universo pleno de ser quem eu sou sem meias medidas. Acho também que me fiz pertencer no mundo sem magoar ninguém.

Hoje, Ana se foi e sou grata a ela por tudo que vivi. Ainda vivo inquieta dentro das palavras dela e agora sei a qual universo eu pertenço...

O meu…

Mariana Gouveia

É autora do romance Colha de Retalhos

Plural | De olhos bem abertos

A você, que me lê…

O tempo está seco: poeira e folhas se espalham pelas ruas da cidade. Típico mês de agosto. Como é prazeroso ver as árvores trocando suas “roupa-gens”. Parece ritual de preparo para as floradas de setembro. Aprecio demais ver essas mudanças na natureza. Penso na transitoriedade e na urgência do aprendizado das pequenas alegrias do cotidiano.

Estou organizando minha biblioteca pessoal — coisa que raramente faço. Isso depõe contra a minha profissão. Mas um pouco de caos nas estantes colocam diferentes autores para um diálogo por vezes insano e divertido. Atrevidamente, selecionei três livros para lhe sugerir a leitura. Mas a indecisão me consome: qual personagem irá gostar? Uma mulher com insônia e que a noite vive outra vida? Uma idosa que desbrava o mundo ou um matador de aluguel?

Depois de muito pensar, decidi por algo que me atravessa fortemente. Falar sobre mulheres, seus desafios e conquistas, assunto que não se esgota nos livros, mas transborda em nossas vidas diariamente. Sono e silêncio, despertar e desejos de uma mulher que está dezessete dias sem dormir são motes para este conto do Haruki Murakami. Uma metáfora sobre mulheres esmagadas pela rotina e o embotamento dos desejos, mas que um dia acordam e vivem suas vidas de outras maneiras. 

A personagem é uma mulher comum, sem nome.

Poderia ser qualquer uma de nós. Dona de casa e mãe, vive para a casa, filho e marido, repete diariamente a mesma rotina, sem refletir sobre sua vida, projetos e sonhos.

Neste ponto, sofri muito com a descrição e a repetição das rotinas da personagem. Com a falta de tempo para si. Sua dificuldade de pertencimento e o embotamento dos desejos. O absurdo da rotina bate na nossa cara com força e traz a percepção do quanto subtrai alegrias e desejos em nossas vidas, nos alienando dos problemas, onde tudo parece caminhar bem, se repetimos continuamente.

Com o passar dos dias e sem dormir, a mulher se percebe disposta fisicamente, viva e com energia. Manter-se acordada lhe traz possibilidades. As madrugadas são suas. Ela começa a viver uma vida dupla. Pela manhã repete a rotina e nas madrugadas inicia uma jornada de autoconhecimento. Reflete sobre sua vida, o casamento, o filho, coisas que ficaram pelo caminho e lhe traziam alegrias. Começa a se olhar e a repensar suas escolhas “não pode mais ficar com os olhos fechados para a sua vida — acordou para o seu mundo”.

Ela retoma a leitura de Anna Karenina. Percebe-se mulher diante do espelho. Volta a comer chocolate. Delicia-se em uma banheira. Bebe conhaque. Faz longos passeios noturnos de carro e tudo isso com muita paixão e enorme entusiasmo. Ela libertou-se da necessidade do sono.

Gostaria muito de lhe contar o desfecho, mas de pouco adianta. Murakami é previsível em vários aspectos. Você terá de refletir muito sobre os elementos simbólicos contidos neste livro. Desde a escolha do livro Anna Karenina, as ilustrações impactantes da artista alemã Kat Menschik. Creio que, no fim, terá mais perguntas do que respostas.

Não sei se já lhe disse, mas eu tenho por hábito, manter na minha estante apenas livros que me tocam, e este é um deles: edição belíssima, capa dura, impressão em papel grosso envernizado, tinta especial e as maravilhosas ilustrações.

Nirlei Maria Oliveira
Livro: Murakami, Haruki. Sono. Rio de Janeiro:
Cartas para abril

Nirlei Maria Oliveira

é Poeta e Bibliotecária com mestrado em Ciência da Informação, nasceu em  Formiga MG, e reside em Campinas, SP. Trabalha no IFSP, Campus de Hortolândia. Atua com ações e projetos de estímulo à leitura. Organizadora da coletânea Quarentena Poética (2020). 

É autora do livro de poesias Palavr(Ar)